Modalidade

História do Futebol de Amputados

Das primeiras experiências do início do século XX à estruturação internacional e ao nascimento da modalidade em Portugal.

1. Antecedentes: amputados a jogar futebol desde o início do século XX

Existem registos fotográficos e referências a pessoas amputadas a jogar futebol com canadianas na Europa desde as primeiras décadas do século XX. A prática ganhou particular significado após as duas guerras mundiais, quando muitos antigos militares amputados recorreram ao desporto como forma de reabilitação física, reintegração social e convívio.

Um exemplo documentado é a formação, em Londres, de um clube de futebol constituído por veteranos amputados da Segunda Guerra Mundial, fotografado em 1952. Contudo, estas experiências eram essencialmente locais e não seguiam ainda um regulamento internacional comum.

Por isso, não é inteiramente correto afirmar que o futebol de amputados foi simplesmente “inventado” em 1982. O que aconteceu nessa década foi a codificação e organização internacional da modalidade que hoje conhecemos.

2. Don Bennett e o nascimento do futebol de amputados moderno

O norte-americano Don Bennett, residente em Seattle, é geralmente reconhecido como o fundador do futebol de amputados moderno.

Bennett tinha perdido uma perna num acidente com a hélice de uma embarcação, mas continuou muito ativo no desporto. Chegou mesmo a subir o Monte Rainier utilizando canadianas.

Segundo o relato mais difundido, em 1982 Bennett estava a observar o filho jogar basquetebol quando a bola rolou na sua direção. Instintivamente, apoiado nas canadianas, pontapeou-a. Esse momento levou-o a imaginar um jogo de futebol adaptado a pessoas amputadas. A partir daí, começou a reunir jogadores, adaptar regras e organizar demonstrações nos Estados Unidos.

A grande contribuição de Bennett não foi, portanto, ter sido a primeira pessoa amputada a pontapear uma bola, mas ter transformado práticas dispersas numa modalidade organizada, reconhecível e reproduzível internacionalmente.

3. Primeiras competições internacionais

Em 1984 realizou-se em Seattle um dos primeiros torneios internacionais organizados da modalidade. A competição reuniu equipas de diferentes países e constituiu um passo decisivo para a criação de uma estrutura internacional.

  • jogos de onze contra onze, sobretudo ao ar livre;
  • formatos reduzidos, normalmente de sete jogadores;
  • competições em recinto coberto;
  • regulamentos ligeiramente diferentes de país para país.

A partir do final da década de 1980, os torneios internacionais começaram a adotar progressivamente o formato de sete jogadores: seis jogadores de campo e um guarda-redes. Os primeiros “Mundiais” tinham normalmente apenas cerca de cinco seleções participantes e eram organizados rotativamente pelos países envolvidos.

As fontes não são totalmente coincidentes quanto à numeração e ao estatuto das primeiras edições. Algumas designam o encontro de 1984 como o primeiro Mundial; outras consideram que os primeiros campeonatos plenamente estruturados surgiram apenas nos anos seguintes. Esta diferença resulta da evolução gradual entre torneios experimentais, competições internacionais e campeonatos oficialmente reconhecidos.

4. Consolidação das regras

Com a internacionalização da modalidade, foram sendo definidas regras próprias. Atualmente, o formato mais comum apresenta as seguintes características:

  • duas equipas de sete jogadores;
  • seis jogadores de campo com amputação ou deficiência num membro inferior;
  • um guarda-redes com amputação ou deficiência num membro superior;
  • jogadores de campo sem prótese e apoiados em canadianas;
  • dois períodos de 25 minutos;
  • campo e balizas menores do que no futebol de onze;
  • inexistência da regra do fora de jogo;
  • substituições ilimitadas;
  • proibição de utilizar deliberadamente as canadianas para disputar a bola ou atingir um adversário.

As canadianas são consideradas instrumentos de mobilidade e não podem ser utilizadas como extensão dos braços ou das pernas. Também não é permitido jogar deliberadamente a bola com elas.

Este modelo tornou o jogo particularmente rápido, técnico e fisicamente exigente, contrariando a ideia de que se trata apenas de uma atividade recreativa ou terapêutica.

5. A organização mundial

A expansão internacional conduziu à consolidação da World Amputee Football Federation — WAFF, atualmente a principal entidade mundial da modalidade.

A WAFF promove e regula as grandes competições internacionais, apoia o desenvolvimento da modalidade nos diferentes continentes e trabalha na uniformização das regras. O futebol de amputados já era praticado, em 2023, por mais de cinco mil jogadores distribuídos por mais de cinquenta países de cinco continentes.

A competição mais importante é o Campeonato do Mundo de Futebol de Amputados, disputado por seleções nacionais. Ao longo das diferentes edições, países como Angola, Brasil, Turquia, Uzbequistão, Rússia, Gana, Inglaterra e Polónia afirmaram-se entre as nações mais competitivas.

O crescimento, contudo, tem sido desigual. Em alguns países existem campeonatos nacionais, formação de jovens e apoio federativo; noutros, as seleções dependem quase exclusivamente de voluntários, donativos e financiamento individual dos atletas.

6. Desenvolvimento na Europa

Na Europa, a modalidade é coordenada pela European Amputee Football Federation — EAFF.

  • o Campeonato Europeu de seleções;
  • a Nations League;
  • a Champions League de clubes;
  • a Europa League;
  • programas juvenis;
  • projetos de desenvolvimento do futebol feminino;
  • apoio à criação da modalidade em novos países.

O primeiro Campeonato Europeu realizou-se na Turquia, em 2017. Seguiu-se a edição de 2021, na Polónia, e o Euro 2024, em França, que contou pela primeira vez com 16 seleções. A Turquia venceu as duas primeiras edições.

A EAFF criou também a Nations League, cuja primeira edição decorreu em 2023, com seleções divididas por níveis competitivos e com promoções e despromoções.

Ao nível dos clubes, a Champions League europeia contribuiu para aproximar os campeonatos nacionais e aumentar a regularidade competitiva. Em 2026 foi anunciada também uma Europa League, destinada a alargar o acesso às competições continentais.

7. Formação de jovens

Durante muito tempo, o futebol de amputados esteve essencialmente orientado para jogadores adultos. A situação começou a alterar-se com o aparecimento de programas específicos para crianças e jovens.

O primeiro EAFF Junior Camp realizou-se na Irlanda, em 2016. O projeto passou depois por países como a Polónia, Itália e Roménia, incentivando a criação de núcleos juvenis nacionais.

Estes campos têm uma importância que ultrapassa a componente técnica: permitem que crianças com amputações ou diferenças nos membros convivam com outras crianças com experiências semelhantes, encontrem modelos de referência e percebam que podem praticar futebol competitivamente.

8. Futebol feminino

O desenvolvimento do futebol feminino de amputados foi bastante mais tardio.

Durante muitos anos, algumas mulheres participaram pontualmente em equipas masculinas ou em ações de demonstração. Em 2023, durante o Congresso da FIFA em Kigali, foi lançado oficialmente o programa feminino da WAFF.

O primeiro Campeonato do Mundo feminino realizou-se em 2024, representando uma etapa histórica na afirmação das jogadoras e na criação de seleções femininas autónomas.

Esta área continua menos desenvolvida do que o futebol masculino, mas é atualmente uma das principais prioridades estratégicas da modalidade.

9. O Prémio Puskás e a projeção mundial

Um dos momentos de maior visibilidade pública ocorreu em fevereiro de 2023.

O jogador polaco Marcin Oleksy, do Warta Poznań, venceu o Prémio FIFA Puskás, atribuído ao melhor golo do ano, graças a um pontapé de tesoura marcado numa partida do campeonato polaco de futebol de amputados.

Oleksy tornou-se o primeiro futebolista amputado a receber o prémio, superando na votação golos de jogadores como Richarlison e Dimitri Payet.

Este reconhecimento foi particularmente importante porque apresentou a modalidade a milhões de pessoas não como uma simples história de superação, mas como futebol de elevada qualidade técnica e competitiva.

10. O desenvolvimento em Portugal

Em Portugal, a atividade é muito recente.

O projeto de futebol de amputados iniciou-se em outubro de 2025, por iniciativa de Miguel Barbosa, um jovem de 21 anos, antigo futebolista do F.C. Famalicão, pelo qual se sagrou campeão nacional de sub-19.

Miguel Barbosa sofreu uma amputação transtibial da perna esquerda, na sequência de um acidente com um comboio em fevereiro de 2025 e, na procura de uma alternativa que lhe permitisse voltar ao futebol, iniciou, em outubro desse ano, os primeiros treinos de futebol de amputados, em Braga.

Em dezembro, a Fundação FPF patrocinou o que se apresentou como o primeiro jogo formal de futebol para amputados em Portugal, na Academia do F.C. Famalicão, com a participação dos 12 primeiros praticantes da modalidade e a arbitragem de Artur Soares Dias, antigo árbitro FIFA, para além da participação dos embaixadores da Fundação FPF, os antigos futebolistas Alan e Silas.

Em maio de 2026 realizou-se o primeiro encontro entre equipas representativas de clubes portugueses, o Estrela da Amadora e o F.C. Famalicão, integrado na Final da Taça da Associação de Futebol de Lisboa.

A FUTAMP, criada em abril de 2026, assumiu, então, a liderança e o desenvolvimento da modalidade em Portugal.